domingo, 19 de abril de 2026

 É estranho como a vida muda tanto, mas tem alguns momento que parecem que a gente não saiu do lugar? ou alguma parte nossa continua presa a um toco fincado num chão de terra mole. Não consigo mais ver o que me limita, mas tem momentos, quando o escuro se instala e eu não consigo ver nada, que parece que eu estou no mesmo lugar, no mesmo banco do parque engolindo comprimidos esperando que eles me levem longe desse lugar aonde eu não desejo estar.
No último ano me conhecia mais do que nunca, morri mais vezes do que gostaria de ter morrido, revivi mais forte, encarei a escuridão do casulo e o sofrimento da força de conseguir abrir minhas asas, mas quando a escuridão se instala e eu não consigo ver nada, tudo parece o mesmo, não há diferença entre se afogar na água ou voar no céu, não tenho peso, não tenho medo, e não respiro.
Faz um ano que recebi o diagnóstico de transtorno bipolar tipo 2, algumas vezes quis te contar isso, talvez daria mais sentido por todas as vezes que eu me isolava e não conseguia explicar meus comportamentos, foi uma luz que só mostrou a profundidade do buraco do meu peito, morri pra renascer e me ver dessa forma falha e incompleta, e entender que eu sempre fui assim, que me aceitar era a única coisa que eu podia fazer, e assim o fiz. Entendi que minha intensidade era além da bipolaridade, mas eu gosto de ser assim, sabe? Não consigo me ver como uma pessoa "normal" que se contenta com conversas sobre política ou futebol, eu quero saber o que move as pessoas, o que lhes fazem sangrar, o que elas tem medo que os outros saibam. Vulnerabilidade é um atributo que no contexto errado vira fraqueza. Eu aprendi isso de uma maneira bem dolorosa, mas não vale falar sobre isso mais. Morri de novo, não porque quis, mas porque precisei, as vezes a morte é o único jeito de deixar pra trás o que não nos serve e encontrar uma versão nova nossa, to há alguns meses encarando a realidade sem anestesias e sem distrações, me ilhando mas ainda mantendo próximo pessoas com quem me importo e que sei que se importam comigo, mas sabe o que é foda? A bipolaridade é uma doença extremamente solitária, ninguém sabe como é difícil habitar minha cabeça e ninguém nunca vai saber. Isso que levou o Xande e quase me levou algumas vezes, mas tento me lembrar que, como eu não quis falhar com ele, e me culpei durante muito tempo achando que tinha sido falha minha, eu sei que ele não gostaria que eu falhasse comigo mesmo, então eu continuo. Tem dias que só fingo morrer, deito e espero a nova vida em um novo dia. Tem dias que eu morri dolorosamente, mastiguei as decepções como cacos de vidro e me deixei sangrar por dentro. Mas eu cansei de morrer, tem dias, como hoje, que eu to tão cansado disso tudo? Não que eu queira desistir, só queria saber quando que isso passa. Não é fácil, parece que quando mais forte eu fico mais dificuldades eu tenho que encarar, mais provações Deus me manda pra me fazer mais forte, e as vezes não sei o que eu fiz pra merecer isso, mas tem momentos que a clareza vem e eu percebo que sem essas experiências eu não estaria me tornando essa versão de mim que eu consigo admirar e amar. Mas tem dias, como hoje, que eu to cansado, sabe? Quando a escuridão se instala tudo parece o mesmo, a diferença entre se afogar e voar é só uma questão de conseguir respirar, e meu peito ta pesado e eu tenho medo de engolir água. Mas por hoje eu só fingo morrer e durmo. Amanhã é uma nova vida. Espero que sua nova vida e as novas vidas que cada dia trazem estejam te tratando bem...