segunda-feira, 5 de junho de 2017

profundo, aperto



Há um intenso aperto
No meu peito
Não me deixa gritar
De nenhum jeito
Me faz tossir
Apertando-me as costelas
A dor de todas elas
Que eu vi passar
E vi voltar
Na minha lucidez imaginária
Que me faz questionar
Se essa gente é otária
Por se preocupar
Com a carga horária
E ter medo de amar
Ou se sou eu
Que estou a delirar
Imerso no agora
Em outro pensamento
E o presente passa lento
Até a flor desabrochar

A vida é curta
Curta demais
Pra levar devagar
O fundo é imenso
Pra não querer mergulhar
Mas todo mundo
Para
Por medo de se afogar

E eu já estou sem ar
O aperto é intenso
O fundo é imenso
E eu não sei nadar

recomeçar Ø



E eu tento fazer outro desenho
De uma mesma idéia
Rasa e inteira
Funda e incompleta
Dessas que a vida está repleta
Não lhe julgo por se assustar
Não é todo mundo
Que quer mergulhar
Por que aqui é fundo
Fundo demais
Não dá pé
Não tem ré
E eu não sei nadar
Continuo a me afogar
E ao zero voltar
E recomeçar
Da mesma idéia
Incompleta
Mas mesmo raso
Tocando a superfície do meu rosto
É o suficiente
Para eu querer mergulhar novamente
Na mesma idéia
Sem saber nadar
O tempo intenso
E a vida é curta
A noite é muito curta
Mas esse momento
Disperso na água turva
Me faz a curva
Me tira do lugar
O mesmo desenho
Com outro pincelar

Talvez por aqui
Dá pé
Talvez eu consiga nadar

ser



Eu rio
Sozinho sorrio
Seu rio, encheu
Fez transbordar
E já chegou
Já fez parar
Águas turvas
Plácidas
Inerentes
Tanta gente fora da corrente
E prende
Se deixa soltar
Ser criança
Voltar
E deixe

mesa de bar ao ar livre



E já estava se esvaindo
Assim como a neblina que chegava
Se despediu e estava saindo
E não chorava
Segurava
E tentava entender
Você me pedia pra correr
Lá dentro
E eu segurava
E amarrava
E esperava isso passar
Mas não ia
Essa vontade não saia
E sua essência não se esvaia de mim
E eu aguardava ansiosamente o fim
Pra enfim, descobrir mais uma peça
Descobrir aonde encaixava
E mais um pico e relaxava
E achava que já sabia
Mas não sabia aonde ia
E de novo
E de novo
Achando as questões no fundo do copo
Deixando as respostas pra madrugada
Esperava e nada
Nada
E de novo
Outro copo
Outra questão
E nada

terça-feira, 23 de maio de 2017

lótus



Em meio ao lodo
Se esconde
Mas eu lembro do seu azul
Forte e calmo
Naquela manhã de sexta

Forte e calmo
Como eu
Como deveria ser
Em outras manhãs
Mas as nuvens desceram as montanhas
As filas acabaram
Os ingressos esgotaram
E eu continuo a voltar
E te procurar
E você esta escondido

Achava que era questão de timing
Mas ninguém sabe a melhor hora
Para desabrochar
Do que as flores
E o melhor momento
Das nuve descerem
O momento em que o vento
Vem de longe
E muda tudo
Escurece, mudo
E as estrelas brilham
Para que o sol venha
Outra vez
Outra manhã
E você se espreguice
Com todas as suas pétalas
De um azul
Forte e calmo

E eu possa aprender
Mais um pouco, com vocês

gastando ócio



Pelos cigarros que não fumei enquanto dormia
E pela canção que não te mexia
A tablatura que não está a sua altura
E aquele pequeno ressonar que eu frizei
falsetes para tons delicados
Alguns textos dedicados
Não são o suficiente
O olhar fundo todo dia
Do olhar triste até que sorria
Também não são o suficiente
E depois de um tempo
Te revi finalmente
Tão diferente
Mas contente
O brilho do olhar que saia da simplicidade
Essa contenção que não se acha fácil nessa cidade
E isso parecia o suficiente
Pra você

Mas quando será suficiente
Não para os outros
Mas para mim?